“Lisboa é barata e cara ao mesmo tempo. Depende de quem está a olhar.
É recorrente aparecer nas manchetes dos jornais algo como “Preços das casas em Lisboa são dos mais caros da Europa.” Esta informação está correcta mas incompleta.
O problema é que comparar €/m² entre capitais pode ser feito de forma aritmética mas também económica. E os dois contam histórias completamente diferentes.
Em preço pedido por metro quadrado (diferente do preço de transação), Lisboa fica em 10.º lugar entre 15 capitais europeias (Erena analytics, 2025). Abaixo da maioria das capitais.
Para um comprador com rendimentos internacionais, seja ele português ou não, Lisboa aparece assim como uma das capitais europeias com melhor relação qualidade-preço. Clima, segurança, gastronomia, infraestrutura, ligações aéreas. A ≈€6.000/m² contra ≈€15.000 em Londres, a decisão é quase óbvia.
O problema está na análise económica, particularmente para quem quer comprar em Lisboa com um salário médio “português”. Que é a vasta maioria.
O rácio preço-rendimento mede quantos anos de rendimento líquido familiar são necessários para comprar um apartamento médio. Segundo o Numbeo (Março 2026), Lisboa está em 19,1x. Ou seja, uma família em média tem de gastar 19,1x o seu salário líquido anual para comprar a casa média.
Isto faz dela a 2.ª capital menos acessível da UE. Só Praga é pior. Um lisboeta precisa de mais anos de rendimento para comprar casa do que alguém em Londres (15,4x), Paris (15,5x) ou Amesterdão (8,8x) (Numbeo, Março 2026).
No arrendamento o cenário é parecido. O rácio renda/salário em Lisboa é de 116% (Euronews, Julho 2025). O salário líquido médio não chega para a renda média de um T1 no centro. Em Londres esse número é 75%.
Segundo o Eurostat, Portugal registou a maior subida de preços de habitação da UE no 2.º trimestre de 2025: +17,2% homólogos. Desde 2010, os preços subiram 141% (Eurostat/Euronews, 2025). Os salários, nesse período, cresceram menos de 20% (OCDE, salário médio anual 2010-2024). Ou seja, o preço da habitação cresceu pelo menos 7 vezes mais do que os salários.
Estamos a convergir com os outros europeus no preço da habitação mas não estamos de todo a convergir nos rendimentos disponíveis.
Uma cidade pode ter preços altos e alta acessibilidade (Copenhaga, Amesterdão). Ou preços relativamente baixos e baixa acessibilidade (Lisboa).
Lisboa é assim uma espécie de cidade de Schrödinger, simultaneamente uma das capitais mais baratas da Europa e uma das mais caras.”
João Grilo via LinkedIn
