O paradoxo da IA no investimento imobiliário

“Andrej Karpathy publicou um mapa de exposição à IA de 342 profissões nos EUA.

Para quem não o conhece: co-fundador da OpenAI, ex-Director de IA da Tesla, doutorado em Stanford, nomeado pela Time entre os 100 mais influentes em IA. É dele o termo “vibe coding”. É das vozes mais credíveis na área de IA.

Segundo o estudo, se o trabalho vive dentro de um ecrã, a exposição é alta. Se exige presença física e decisão em ambientes imprevisíveis, a IA ainda não chega lá. Por exemplo:

Developers, analistas financeiros, trabalho jurídico, etc: (exposição alta, 8-9/10)

Profissões acima de 100k$/ano: (exposição média, 6-7/10)

Electricistas, canalizadores, pedreiros, etc: (exposição baixa, 2/10)

A construção aparece no extremo mais protegido. A IA actual não tem corpo. É maioritariamente software e serve para processar texto, código, números, imagens. Tudo digital. Para que o trabalho físico fique exposto ao mesmo nível que o de um analista financeiro ou de um developer, a robótica precisa de acompanhar a velocidade de evolução dos modelos de linguagem. E não está sequer perto.

Um LLM duplica de capacidade em meses. Os primeiros robôs conhecidos (Tesla, Boston analytics, etc) ainda lutam com escadas, superfícies irregulares. Ainda é difícil conseguirem lidar com ambientes complexos e tolerâncias milimétricas que é “o pão nosso de cada dia” em obra. E mesmo que o robô funcione, há o problema de escala: custos de produção, logística, manutenção em ambiente agressivo. Construir um robô que faz o que um pedreiro faz não é um problema de machine learning. É um problema de engenharia mecânica, de materiais, de energia e de custo unitário. A convergência entre robótica e mercado ainda parece estar a alguns “anos de distância”.

Entretanto, o paradoxo para quem trabalha em investimento imobiliário é este: a parte do nosso trabalho que a IA faz melhor que nós é exactamente a parte que achávamos que nos distinguia. Analisar deals, correr cenários, comparar cap rates. Isso agora demora minutos e toda a gente já tem ou vai ter acesso.

O que continua a ser raro é o que nunca valorizámos o suficiente. Negociar ao telefone com um proprietário que não quer vender, ainda há lag e a linguagem sem ser em Inglês é pouco natural. Olhar para uma parede e perceber se o problema é estrutural ou cosmético. Saber que aquela rua não tem liquidez apesar dos números dizerem o contrário. Conseguir que uma equipa de obra entregue no prazo.

O ladrilhador, o canalizador e o serralheiro não são substituíveis por nenhum modelo de linguagem. A escassez de mão-de-obra qualificada não vai melhorar imediatamente. E isso torna dois activos cada vez mais valiosos: pessoas competentes no terreno e imóveis fisicamente reabilitados.

A revolução da IA é assimétrica. E essa assimetria favorece quem tem as “mãos na massa.

Fonte: karpathy.ai/jobs

João Grilo via LinkedIn

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